Pode parecer contraintuitivo eu falar isso num mundo onde JavaScript e Python dominam e onde “IA” virou sinônimo de copiar/colar código rápido. Mas é exatamente por isso que tipagem forte + compilador ficaram ainda mais importantes agora.
LLM adora caminho curto: linguagem dinâmica, script rodando sem build, sobe rápido, “funciona”. Só que esse atalho vem com juros compostos: mais bug bobo, mais bug invisível, mais tempo corrigindo bug que a própria IA gerou… e sim: mais tokens queimados. Vamos por partes.
“Mas tudo vira máquina do mesmo jeito”
Independente da linguagem, o pipeline real é sempre parecido:
código → parser → AST → camadas intermediárias (HIR/MIR/IR) → otimizações → assembly/bytecode → execução
Se roda em VM (tipo Java/Erlang/Elixir), se roda em JIT (JS/Python/Java), ou se gera binário AOT (C++/C#/Rust/Zig), no fim alguém precisa responder perguntas chatas:
quanto de memória isso ocupa?
qual instrução usar pra somar, comparar, chamar função?
qual layout desse objeto?
isso aqui é inteiro, float, ponteiro, referência, string?
E aí vem o ponto que muita gente ignora: quando você desce o nível, tipagem vira unanimidade. Linguagem dinâmica também cria “tipos reais” por baixo (mesmo que em runtime). Ela só empurra a decisão pra depois — e o “depois” é quando você tá com produção em chamas.
Tipagem dinâmica é só tipagem adiada
O Number do JavaScript, por exemplo, pode “parecer um número genérico”, mas o motor tá o tempo todo tentando encaixar em representações eficientes (int32, double, etc.), fazendo deopt quando muda o perfil. Isso é poderoso — e instável. O custo aparece como:
comportamento diferente sob carga
quedas de throughput em “picos aleatórios”
bugs que somem no dev e aparecem no prod
profiling virando religião
GC resolveu um inferno e trouxe outro
A indústria enfiou Garbage Collector como solução pra uma era onde memory leak e buffer overflow eram rotina (C puro era faroeste). Só que GC não é “de graça”:
ele compete por CPU com seu código
ele cria pausas (às vezes pequenas, às vezes assassinas)
ele muda a previsibilidade do sistema
Em alta concorrência, previsibilidade vale ouro. Por isso você vê o mercado apelando pra:
pools de objetos
estruturas “flat” e compactas
menos alocação por request
fuga pro unsafe/ponteiro quando a coisa aperta
E aí você volta pra aquele bingo do terror: stack overflow, access violation, race condition.
Rust acertou o alvo — e o mercado ainda finge que não
Quem entendeu esse trade-off e trouxe uma perspectiva realmente nova foi Rust:
sem GC
tipagem forte de verdade
ownership/borrow checker (regras no compile-time)
otimização agressiva e previsível
Resultado: aplicações estáveis, alto desempenho, sem travar do nada, sem “vazamento invisível” como estilo de vida.
O motivo de ainda não ser padrão absoluto é simples e feio: preguiça + custo de aprendizado + cultura de “faz funcionar depois a gente vê”. E sim, a verbosidade incomoda quem só quer “subir endpoint”.
Só que aqui entra o ponto da IA: LLM piora o problema da cultura do atalho, porque ela aumenta a velocidade de produzir código errado.
Compilador é o primeiro agente de qualidade do seu sistema
Pra quem nunca implementou um compilador (ou nunca precisou entender um), parece “mágica”. Mas compilador bom é uma máquina de esmagar classes inteiras de problemas antes de virar bug:
checagem de tipos
análise de fluxo
warnings úteis
otimizações que não mudam semântica
layout coerente e previsível
E compilador/runtime fazem diferença real. Vários saltos recentes de performance no ecossistema vieram de engenharia pesada no compilador/JIT, sem você tocar no seu código.
O ponto não é “linguagem X é melhor”. O ponto é: um bom pipeline de compilação é um multiplicador de qualidade.
O veneno da ambiguidade: null, any e dados sem contrato
Quem desenvolve há mais tempo sabe: erro de digitação o compilador acha. O problema é o erro complexo, o invisível:
variável dinâmica que muda de formato
nullaparecendo no lugar erradoanyvirando buraco negroJSON vindo torto e ninguém sabe até estourar
“funcionava ontem” porque o dado do banco era diferente
Aí entra a treta moderna:
Tipagem dinâmica + banco sem schema = inconsistência inevitável
Quando você junta runtime solto com documento sem validação forte, a inconsistência vira fato estatístico. Você passa mais tempo:
tratando exceção
escrevendo defensivo
entupindo
try/catchadicionando validação manual em tudo
E quando você põe IA no meio, piora: a IA gera “o caminho feliz” e ignora os cantos escuros. Você vira o adulto na sala limpando a bagunça.
ORMs e validações ajudam, mas o que resolve de verdade é ter contrato:
schema explícito
tipos que batem com o contrato
validação automática
falhar cedo
A virada de chave na era da IA: compilar é parte do prompt
Aqui é onde a galera ainda tá dormindo.
Se você quer usar IA com seriedade, você precisa de um loop curto e brutal de feedback:
IA escreve
compila
testa
falha
IA corrige
repete
Isso transforma o caos em pipeline. E tipagem forte ajuda porque:
reduz o espaço de possibilidades (menos ambiguidade)
força o modelo a “encaixar” no contrato do sistema
deixa refactor seguro (o compilador vira radar)
torna o erro explícito e localizável (menos debug místico)
Em linguagem dinâmica, o loop vira:
IA escreve
roda
explode num lugar aleatório
você caça o bug em runtime
descobre que o dado veio diferente
adiciona ifs e try/catch
o código vira um cemitério de exceções
Isso não escala. Nem com humano, nem com IA.
O combo que presta
Compilador é a primeira barreira contra erros básicos.
Tipos reduzem inconsistência de dados e contratos quebrados.
Testes protegem lógica e regressão.
CI garante que nada entra sem passar pelo funil.
E se você tiver um AGENTS decente + CI rodando em commit/PR, você cria um ambiente onde IA vira ferramenta de produção, não brinquedo.
LLM vai quebrar seu código do mesmo jeito. Só que, num setup bem feito, ela quebra e corrige na sequência, porque o sistema não deixa ela “seguir em frente fingindo que tá tudo bem”.
No final, aí sim você escolhe o modelo… e começa a sofrer com brigas forever alone até ficar do jeito que você quer.
